Aconteceu em Folsom

Janeiro de 1968 ficou marcado pela gravação do lendário Johnny Cash At Folsom Prison, um dos melhores álbuns ao vivo da história. Falar do disco é chover no molhado. Ele é perfeito! Mas quero destacar um momento em especial. O momento em que o ídolo canta a música do fã. Algo que, certamente, marcaria a vida de qualquer um.

Preso por assalto a mão armada, Glen Sherley era detento da prisão de Folsom e ganhou um verdadeiro presente ao final do show. Ele teve sua canção, “Greystone Chapel”, sobre a capela da prisão, interpretada de surpresa por Cash. Antes de começar a cantar, Cash ainda estendeu a mão ao fã, que estava sentado na primeira fileira, e o apresentou como o autor da música.

Depois do show, Johnny Cash e June Carter se compadeceram do sonho de Sherley de tornar-se cantor. O Homem de Preto intercedeu para que o presidiário conseguisse a liberdade e depois o ajudou com sua carreira musical. Infelizmente essa história teve um final trágico. Devido aos problemas com drogas e à incapacidade de se ressocializar, o ex-detento acabou se suicidando em 1978.

De qualquer forma, Sherley viveu seu sonho. Assista, abaixo, o ex-presidiário de Folsom cantando “Greystone Chapel”:

Na forca

A música dessa semana é “25 Minutes to Go”. Sua primeira gravação aconteceu em 1963 pela banda folk Brothers Four. Três anos mais tarde, Johnny Cash a regravou nos álbuns Sings the Ballads of the True West  e no mitológico At Folsom Prison. A canção foi escrita pelo grande poeta e compositor Shel Silverstein, famoso pelo livro The Givin Tree – que no Brasil foi traduzido por Fernando Sabino.

A letra de “25 Minutes to Go” é uma brincadeira sobre um prisioneiro que foi condenado à forca. O personagem faz comentários engraçados sobre a situação e começa a contagem regressiva. E, claro, essa contagem começa aos 25 minutos. Conforme os minutos vão passando, o condenado vai percebendo que o perdão não virá e que seu destino está decretado.

Depois de Cash, músicos de vários países fizeram suas versões. Mas a melhor delas foi a da banda Pearl Jam, que entrou no álbum Live at Benaroya Hall, de 2003.

25 Minutes to Go – Johnny Cash

25 Minutes to Go – Pearl Jam


Cash – Uma Biografia

Se existe algo que deixa os fãs brasileiros de Johnny Cash tristes é a falta de lançamentos bibliográficos sobre o ídolo. O único em língua portuguesa é a biografia em quadrinhos Cash – Uma Biografia, do alemão Reinhard Kleist, que foi traduzida em 2009.

A obra original foi publicada na Alemanha em 2006. O livro mostra um Cash mais sombrio, enfocando bastante os efeitos das drogas na vida do cantor. Outro ponto muito interessante é que além da história central, há outra que é contada por um dos presos de Folsom Prison.

O responsável por traduzir essa grande obra e trazê-la aos brasileiros foi o gaúcho Augusto Paim. Confira a entrevista exclusiva que o Senhor Cash fez com ele:

Fazer um Johnny Cash mais sombrio era a real intenção da obra?

O Cash de Kleist é uma espécie de Cavaleiro das Trevas da música country, o que de certa forma demarca a inflluência da linguagem dos quadrinhos na obra. A versão cinematográfica Johnny & June, apesar de bastante diferente, também evidencia a influência de um gênero e de uma linguagem no resultado estético. Essas diferentes versões, no entanto, não significam de modo algum falhas de uma ou outra obra. O mesmo homem pode ser lido sob diferentes luzes. É questão de interpretação. O Johnny Cash de Kleist é um homem iluminado pela luz de uma lanterna na floresta escura.

Qual a importância das músicas de Cash nessa biografia?

É difícil fazer a biografia de um músico, tanto em quadrinhos quanto em prosa. Por quê? Porque esses são meios visuais, o que faz perder o principal elemento de um personagem como esse: a sua arte. Não que isso inviabilize um trabalho, pois há alternativas. Kleist, por exemplo, usa as músicas como interrupções para dar ritmo à leitura – como as pausas em uma música fazem também. Ele inclusive “desenha” essas músicas. Isso só é possível, claro, porque as canções de Johnny Cash são de natureza narrativa. Elas contam uma história e, quando a ouvimos, imaginamos essa história. São, portanto, músicas visuais! Por outro lado, essa estrutura utilizada por Kleist tem outra função: ela insere as obras dentro do contexto da vida do autor contada durante todo o livro. Porque os grandes artistas – os de reconhecimento duradouro – não criam apenas por objetivos comerciais. Eles “sentem” o que criam, e essa sua obra tem então origem nos acontecimentos à sua volta. Assim é a história de Johnny Cash e assim conseguiu Kleist reproduzir essa história na forma de quadrinhos.

Por quê o livro ganhou tantos prêmios pelo mundo todo?

Premiações às vezes dizem respeito mais a questões extraliterárias (extraquadrinísticas também) do que à qualidade da obra. Mas há casos raros em que mérito e reconhecimento do meio coincidem. É o caso de Cash – uma biografia. Vejo nessa obra diversos motivos para essa carreira premiada. Um dos principais são técnicos: a qualidade do desenho, as dificuldades de narrar em preto e branco, o layout das páginas… Além disso tem a natureza narrativa: o modo como Kleist compôs a obra, a escolha do narrador, a estrutura dos capítulos etc. Mas, no fundo, no fundo, o que importa mesmo é o conjunto da obra composto pelo mosaico de todas essas partes. O que importa mesmo é a interpretação que Kleist nos dá de Johnny Cash. Sem romantismo, sem iconolatria. Apenas o homem e o que ele conseguiu com sua arte, sem esquecer aí o que isso lhe custou. O ônus e o bônus. Como na vida de todos nós, pessoas reais.

Na sua opinião, o que diferencia Johnny Cash de outros ídolos da música?

Acho que a sua versatilidade é um elemento importante. Johnny Cash, que começou como um ídolo comum da música country, tornou-se no fim da vida um artista contracultural. E em todas as fases da sua carreira há músicas emblemáticas que permanecem idolatradas até hoje. Ele também é bastante admirado por sua audácia e coragem – como por ter tocado para os prisioneiros na prisão Folsom, por exemplo. E pela sua perseverança ante os obstáculos da vida – a morte do irmão, as crises com as drogas, o relacionamento com June. Em suma, Johnny Cash sintetiza a unificação entre artista e obra, e aqueles que o admiram de verdade o admiram como homem e como músico.