A última entrevista de Cash

Em 25 de julho de 2003, depois de receber seis indicações para o MTV Music Awards, Johnny Cash conversou com Lev Grossman, da famosa revista Time. O assunto principal era a gravação de “Hurt”, que fazia um enorme sucesso em todo o mundo. Essa foi também a última entrevista oficial de Cash. Ele faleceu poucos meses depois.

Por que você escolheu gravar “Hurt”?
Foi ideia do Rick Rubin (produtor). Nós estávamos em busca de uma canção que causasse um grande impacto. Aí, ele me perguntou o que eu achava de “Hurt”. Eu disse: “Eu acho que é provavelmente a melhor canção antidrogas que eu já ouvi, mas eu não acho que é para mim. Não é meu estilo, não é a maneira que eu faço.” E ele disse: “E se fosse?” E eu disse: “Bem, eu poderia tentar” Então eu saí e gravei. Quando eu escutei o resultado, senti que tinha dado tudo certo.

Como você conseguiu transformar um metal-industrial do Nine Inch Nails em uma grande canção de Johnny Cash?
Não foi fácil não. A minha ideia era cantar quantas vezes fosse necessário até que eu sentisse que estava fazendo isso com sentimento. Eu provavelmente cantei essa música 100 vezes antes de gravá-la.

Fez sentir como se você a tivesse escrito?
É uma música que eu gostaria de ter escrito. Se voltarmos aos anos 60, eu acho que eu poderia ter escrito algo assim.

Você pensa em rock e country como duas coisas diferentes?
Não! Eu nunca poderia pensar nisso. Eu realmente estou tentando provar que não existem categorias que você tem que ficar. É possível diversificar.

Você pensa em si mesmo como um artista cristão?
Eu sou um artista que também é um cristão. E não um “artista cristão”.

O Homem de Preto é o que realmente você é?
Eu vestia roupas pretas, quase desde o início. Sempre me senti confortável. Então, em 1969, eu escrevi uma canção chamada “Man in Black”, no qual aponto que há um monte de coisas erradas no nosso país, um monte de hipocrisias, a Guerra do Vietnã, tudo isso. E eu, como protesto, iria continuar meu “luto”. Depois disso, o rótulo de Homem de Preto pegou de vez!

Você se sente pessimista sobre a maneira como as coisas estão indo nos EUA?
Eu só queria que … Gostaria que …. hummm. Melhor não entrar nisso, Lev.

No que você está trabalhando agora?
Quando minha esposa morreu, me tranquei no estúdio só para trabalhar, para me ocupar. Então eu comecei a gravar todas essas coisas que eu encontrei, músicas que as pessoas me enviaram e etc. É isso que eu vou estar fazendo por um bom tempo.

Leia também a primeira entrevista de Johnny Cash que nós traduzimos.

Anúncios

INÉDITO: Com a palavra, Cash!

Hoje posto um material inédito em língua portuguesa. Trata-se de uma entrevista do Homem de Preto, realizada em 2003, que foi concedida ao ator e amigo pessoal, Tim Robbins. Na época, o áudio acabou entrando em uma edição especial do álbum American III: Solitary Man.

A conversa é bem descontraída e, em certos pontos, até bem humorada. Ela aborda assuntos como a publicidade no meio musical, os álbuns gravados nas prisões, a infância no campo e também o período em que Cash serviu na Força Aérea Americana.

Espero que gostem!

Cash: Não dou muitas entrevistas. Na verdade, não estou fazendo nada atualmente! Vou tirar dois dias de folga para ir para casa e logo depois volto ao estúdio. Hoje o artista se transformou em publicitário, em um vendedor de discos.  Por isso quero terminar tudo em quatro ou cinco dias para depois fazer duas semanas de televisão e terminar.

Robbins: Então tenho sorte de você estar aqui e sorte de querer falar comigo. Espero não te incomodar.

Cash: Estou me referindo ao artista ter que realizar o marketing do produto. Quando comecei, em 1955, tínhamos um show em Arkansas com Elvis Presley. Pediram-me que fosse à emissora de rádio para promover o concerto desta noite. Não aceitei fazer o tal programa, mas Elvis fez. Não acreditava nisso, até que me dei conta de que eu também havia me transformado em um publicitário, justo eu que sempre fui contra isso. Mas é o tipo de coisa que precisamos fazer. Nem que seja para depois poder escolher que tipo de publicidade vale a pena.

Robbins: Mas em que momento da carreira você decidiu aderir à publicidade?

Cash: Foi quando a gravadora me mandou fazer pela primeira vez uma foto promocional. Eu disse a mim mesmo: “Jamais volto a fazer uma coisa dessas!” (Risos) Isso foi em 1955 e, a partir daí, fiz fotos em todos os anos. Mas, pelo menos, aprendi a ser mais seletivo.

Robbins: Talvez por isso que a mídia acabe se equivocando, e relacionando você a coisas que na verdade não são reais. Como por exemplo, a lenda de você ser “meio índio”.

Cash: Adoraria ter uma parte índia, mas não tenho. Eu encontrei muitos amigos índios por causa da minha música. Canções como “Folsom Prison Blues”. Tinha uma família de jovens índios em Salt Lake City que batizaram um de seus filhos com meu nome. Foi aí que me dei conta que precisava tocar em prisões e em reservas indígenas para poder me aproximar mais deles. Fui a uma reserva em New York e me tornaram um deles, em uma cerimônia. O chefe da tribo e sua mulher celebraram o rito de iniciação e me deram um nome indígena. É assim que funciona essa relação. Eles escutam coisas em meus discos com as quais se identificam, acabam me agradecendo e me tratando muito bem. E eu faço o mesmo com eles.

Robbins: O mesmo acontece com os presidiários, já que você devolve a eles um pouco de dignidade e dos direitos humanos que lhes foram negados.

Cash: Acho que sim. Toquei em minha primeira prisão em Hountville, Texas, em 1956. Era uma espécie de rodeio, onde nós ficávamos parados no meio da arena. Só conseguia ouvir o meu violão. Porém, quando a música parou, a multidão delirou. Quanto mais gritavam, melhor era para nós. Depois disso fiz outros shows em prisões, como em San Quentin. Mas sempre tive a vontade de gravar um álbum em uma delas. Eu sabia que um disco ao vivo em uma penitenciária poderia ser algo espetacular. Finalmente falei com meu agente, que convenceu a gravadora. Foi aí que gravamos em fevereiro de 1968 o At Folsom Prison.

Robbins: Vamos falar um pouco da sua infância. Você nasceu em…

Cash: Em 26 de fevereiro de 1932. Em uma pequena casa rodeada de árvores e campos de algodão. Foi ali que cresci, nas terras negras do Delta, ao lado do rio Mississipi. Meu pai era um criador de mulas. A gente passava o tempo todo atrás dessas mulas. Tinha que levá-las pastar e depois ia buscá-las. Era uma tradição familiar. Todos da família faziam o mesmo, inclusive as meninas. Tenho lembranças doces, mas também lembranças amargas, mas no geral era uma boa vida. O que amenizava todos os problemas era o rádio que escutávamos todas as tardes quando voltávamos do campo. A gente ouvia o que hoje é conhecido como Hillbilly, música Folk, Jimmy Rodgers, e todos os artistas populares do Texas. Para mim havia todo um mundo musical ali. Não digo que resolvi começar a cantar por causa dessas músicas, mas com certeza me fizeram cantar melhor.

Robbins: Quando começou a fazer música?

Cash: Comecei a escrever poemas muito antes do que me lembro, mas nós não tínhamos dinheiro para comprar instrumentos musicais. Dessa forma não consegui ter meu violão antes dos 18 anos. Mas eu cantava na escola e na igreja. Minha mãe trabalhou duro para me ensinar canto e me conseguiu uma professora. Tive três aulas com ela, cantando solo e sendo acompanhado pelo piano. Só que eu me sentia tão incomodado que ela percebeu e disse: “Ok, eu desisto. Cante apenas as músicas que você gosta”. E aí cantei uma música de Hank Williams, “Lovesick Blues”. Ela fechou o piano e me disse: “Suas aulas de canto terminaram. Cante sempre da sua maneira e nunca deixe que te digam o que fazer”. Aquilo foi quando tinha 14 anos. Nunca esqueci esse conselho. Passaram-se os anos e estudei mais música, principalmente para aprender a ler e escrever. Às vezes isso é útil. Se você está no meio da noite e te vem uma ideia de melodia à cabeça, pode anotar tudo em um papel para no dia seguinte tocá-la.

Robbins: E o serviço militar, onde serviu?

Cash: O treinamento básico foi em San Antonio, em 1950. Em seguida, fui trabalhar com operação de rádio nas bases. Eu tinha talento para me comunicar por códigos. Aquilo foi durante a Guerra Fria, por isso me mandaram para uma base do Texas estudar o código russo. Aprendi a falar russo e a aplicar tudo em código morse. Depois, eu precisei escolher meu destino: Alaska ou Alemanha. E fui para a Alemanha, é claro! (Risos) Fiquei lá muito tempo, trabalhando nos serviços da segurança nacional e sendo interceptador de rádio. Cheguei a ser chefe de operações durante três anos. Quando o serviço militar acabou me ofereceram um cargo, mas eu disse: “Obrigado, mas eu quero é cantar no rádio!”.

Robbins: Nessa época você já tinha comprado o seu violão?

Cash: Sim. Já tinha conseguido o meu primeiro violão.

Robbins: E qual violão era?

Cash: Nem tinha nome, era um violão da Alemanha. Mas o som era bom e dava pra afinar um pouco.

Robbins: Nossa! Não sabia dessa história que você tinha ajudado na segurança nacional do país…

Cash: É… mas tem muitos outros segredos que não posso contar. (Risos)