O Velho 97

Hoje vou falar da música “Wreck of the Old 97”, regravada por Johnny Cash e que possui muita história. Porém, antes de falar da canção em si, é preciso contar sobre sua inspiração: um acidente de trem.

O Velho 97 era um trem do século passado, que fazia a viagem de Washington para Atlanta, nos EUA. Em 27 de setembro de 1903, ele acabou descarrilhando perto de Danville, Virginia. Onze pessoas morreram e sete ficaram feridas.

A música, que foi inspirada nesse famoso acidente, foi lançada em 1924 pelos músicos GB Grayson e Henry Whitter e é considerada o primeiro grande sucesso da música country. Desde então, “Wreck of the Old 97” foi gravada por inúmeros artistas como Pete Seeger, The Seekers, Hank Snow, Johnny Cash e Hank Williams III.

A briga para saber quem realmente escreveu a canção foi intensa. Fred Jackson Lewey e Charles Noell afirmaram reivindicaram a autoria da música. Lewey dizia estar presente no dia do acidente e que era primo de um dos bombeiros que trabalharam no local. Mas, em 1927, a Justiça americana declarou que George David Graves, um morador local, como o compositor oficial.

A primeira vez que o Homem de Preto gravou a canção foi em seu álbum de estreia With His Hot and Blue Guitar, em 1957. Posteriormente, ela entrou em outros discos como I Walk the Line e At San Quentin (onde temos uma versão matadora).

Curiosidade: O filme “The Blues Brothers” faz uma referência a esse grande clássico da música americana. Enquanto a banda estava ensaiando algumas músicas, o personagem Elwood diz: “Desculpe, mas não consigo me lembrar de “The Wreck of the Old 97”.

Ouça, abaixo, algumas versões da música:

 

 

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Country ou Rock?

Ao longo dos anos, jornalistas, críticos e fãs sempre se dividiram na hora de classificar o som do Homem de Preto. Country ou Rock? Afinal, mesmo sendo uma lenda da música country, Cash faz parte da história do rock´n´roll.

Juntamente com Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, entre outros, Johnny Cash ajudou a criar o estilo. Além disso, ele foi um dos pioneiros do rockabilly. Basta ouvir músicas como “Get Rhythm”, por exemplo.

E o que dizer de suas roupas? Muito antes de qualquer metaleiro se vestir de preto, lá estava Johnny Cash. Isso sem falar de suas letras, suas atitudes e sua vida conturbada. Nada mais rock´n´roll!

Mas essa “briga” entre country e rock ficou ainda mais evidente nos anos 90. Nessa época, as rádios country ignoravam os álbuns de Johnny. A relação com as gravadoras também não era das melhores.

Tudo piorou quando Cash se juntou ao produtor Rick Rubin e inciou a série American. Todos os críticos ligados ao estilo condenaram o cantor. Diziam que aquilo não era country. Foi nessa fase que Cash fez versões para bandas de rock contemporâneo, como Nine Inch Nails, Soundgarden, U2, Depeche Mode, entre outros.

Para “celebrar” o momento, Cash e Rubin compraram um anúncio de página inteira na revista Billboard, onde sarcasticamente agradeciam à indústria da música country por seu apoio irrestrito, acompanhado de uma fotografia de Cash mostrando seu dedo médio (em breve farei um post especial sobre isso).

De qualquer forma, Johnny Cash sabia como ninguém transitar tanto pelo country, como pelo rock. E, mesmo em seus últimos discos, o Man in Black nunca esqueceu dos artistas country. Tanto que a série American tem homenagens a grandes nomes desse estilo, como Hank Williams e Kris Kristofferson.

Por isso, vamos esquecer esses rótulos. Afinal, o som de Johnny Cash é impossível de se classificar. O próprio Cash era contra separar as duas coisas. Ele detestava esse tipo de rótulo. A verdade é que graças a essa mistura de estilos (sem esquecer do gospel também) é que o ídolo conseguiu chegar a um som inigualável.

A maior prova disso é que ele faz parte do Rock and Roll Hall of FameCountry Music Hall of Fame, Gospel Music Hall of Fame e Rockabilly Hall of Fame. Pouca coisa, não?!

O velho Hank

Se existe alguém que, de fato, influenciou a música de Johnny Cash, essa pessoa foi Hank Williams. Estamos falando da maior lenda da história da música country.

Além de ser um ícone do segmento, Hank foi o precursor de outros estilos musicais como o Honky Tonk e o Rockabilly. O cantor foi tão popular que centenas de artistas já regravaram seus sucessos. Além disso, ele influenciou grandes nomes da música como Ray Charles, Bob Dylan, Louis Armstrong, David Allan Coe e, claro, Johnny Cash.

Apesar de todo o sucesso, sua carreira não durou muito. Isso porque Williams teve uma morte precoce. O músico, que sofria de espinha bífida (lesão congénita na medula espinhal), morreu aos 29 anos, em decorrência do abuso de bebida e morfina.

O legado de Hank é mantido vivo, graças a seus filhos Hank Williams Jr. e Jett Williams, além de seus netos Hank Williams III, Holly Williams e Hillary Williams. Todos são cantores de música country e fazem questão de preservar o estilo que o velho Hank consagrou.

Abaixo, posto “Lovesick Blues” e “Hey, Good Lookin”, dois dos maiores sucessos do cantor. E, em seguida, Johnny Cash tocando “I’m So Lonesome I Could Cry”, uma das diversas canções de Hank Williams regravadas pelo Homem de Preto.  Espero que gostem!

 

 

Entrevista: Rodrigo Haddad

O cantor Rodrigo Haddad é considerado por muitos como o maior representante brasileiro da verdadeira country music. Faz shows no Brasil, na Argentina e, até mesmo, em Nashville, TN – o berço do country.

Além de viajar, divulgando seu último álbum, What I Know Now, o cantor possui também um projeto paralelo onde faz um tributo a Johnny Cash.

No show, Haddad passeia por toda a carreira do Homem de Preto, dando seu toque pessoal em cada música.

Quando conheceu a música de Johnny Cash?

Foi quando eu fui estudar em Nashville, TN no ano de 1999 que eu me dei conta da grandeza e importancia da musica country mais antiga. Eu cresci em Sao Paulo ouvindo muito os grandes artistas country dos anos 80 e 90. Mas quando cheguei em Nashville, os bares e os Honky Tonks do centro na Broadway Ave. foram uma grande escola pra mim. Foi lá que comecei a me interessar mais por artistas como Merle Haggard, Waylon Jennings, George Jones, Willie, Hank Williams Jr. e, claro, Johnny Cash. Anotava os nomes das musicas e no dia seguinte já estava no supermercado comprando as fitas cassetes. Essa viagem me marcou muito musicalmente na minha vida.

Como surgiu a ideia de incluir Cash nos seus shows?

Me lembro que na semana seguinte de sua morte nós tínhamos um show no Villa Country, em Sao Paulo. Resolvi abir com “Folsom Prison Blues” para homenagear Johnny Cash. Foi muito emocionante para nós e, por outro lado, diferente para o público que estava acostumado com uma musica country mais moderna. Depois, com o passar do tempo, a galera começou a conhecer e pedir mais as músicas de Cash em nossos shows. Foi então que resolvi montar um projeto paralelo a minha carreira musical com músicas de Cash e de artistas da época. Era um som mais cru, classico e fazíamos várias festas rockabillys em casas noturnas na Rua Augusta e no centro de SP. Depois,  junto de Thiago Farah e Sonny Rocker da banda Crazy Legs criamos o trio Hillbilly Combo. No repertorio rolava várias do Cash. Com o lançamento do filme “Walk the Line” as coisas melhoraram bastante e pudemos fazer mais apresentações.

E o tributo, quando começou? Qual é o ponto alto do show?

Anos depois, a Hillbilly Combo acabou e nós resolvemos dar um tempo. Mas eu não queria perder esse espaço que eu já tinha conquistado e resolvi continuar com o Tributo a Johnny Cash, mas dessa vez com a minha própria banda que já está comigo há muitos anos. O ponto alto do show é difícil dizer, pois o pessoal que curte Johnny Cash gosta da maioria das músicas. Pedem sempre “Cocaine Blues”, “Ring of Fire”, “Jackson”, etc… Eu acho que um dos destaques é a versão que fazemos da “Ghost Riders in the Sky”, mas eu particularmente acho muito especial a “Walk the Line”.

Você acha que, nos últimos anos, o brasileiro começou a se interessar mais por Johnny Cash?

Acho que sim. O filme, com certeza, ajudou muito na popularização de Johnny Cash em nosso Pais. E também graças a todos nós que estamos na noite! Todas as bandas que eu conheço (do nosso segmento) aqui no Brasil fazem músicas de Johnny Cash em seus shows. Mesmo não conhecendo, é difícil voce ver alguém na plateia que não goste das suas músicas.

E nos EUA, você sente que a música do Man in Black continua viva?

Mais do que nunca! Como o próprio Dylan disse após sua morte “Ele nasce acima de todos nós e nunca morrerá ou será esquecido, mesmo pela pessoas que ainda não nasceram – especialmente por essas pessoas – e isso, para sempre”. Em Nashville já foi anunciado a construção de um grande museu em homenagem ao Man in Black.

Na sua opinião, qual é a importância de Johnny Cash para a música?

Que quanto mais simples você faz, melhor fica!

Rodrigo Haddad

Johnny Cash With His Hot and Blue Guitar

Para a nossa primeira resenha, nada melhor que o primeiro LP de Johnny Cash. O ano era o de 1957 e o Man in Black estreava com Johnny Cash With His Hot and Blue Guitar.

Como o álbum começou a ser gravado em 1954, podemos ver logo de cara três de seus maiores sucesssos: “Cry, Cry, Cry”, “I Walk the Line” e “Folsom Prison Blues” – que já tocavam bastante nas rádios. É o tipo de disco fundamental para quem é fã ou para quem quer começar a conhecer o trabalho de Cash.

Lançado pela Sun Records, o disco apresenta temáticas como prisões, trens, vida no campo, espiritualidade e amores fracassados. As músicas, como já se pode esperar, são muito frenéticas, com uma rapidez incrível, que nenhum cantor ou banda fazia na época, com uma grande influência do Rockabilly, além do Country em sí.

A maioria das faixas viriam a ser hit-singles, desbancando até artistas como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, que também pertenciam a Sun Records. Graças ao sucesso desse álbum, Cash ganhou sua primeira grande turnê pelo país.

Os destaques, além das músicas já citadas, ficam com a balada “Country Boy”; os então B-sides “Hey Porter” e “Get Rhythm”, que aparecem neste disco como faixas-bônus; a gospel “I Was There When It Happened”, que a princípio, havia sido recusada por Sam Phillips; a excelente “Rock Island Line”; e “So Doggone Lonesome”, que também se tornaria um clássico do cantor. Ou seja, praticamente todas as músicas do álbum!


 


Em todos os lugares

A música dessa semana é o super-country “I´ve Been Everywhere”, gravada por Johnny Cash em 1996. Ela foi escrita pelo australiano Geoff Mack, em 1959, e listava diversas cidades da Austrália.

Porém a versão que conhecemos foi adaptada por Hank Snow, em 1962, para lugares da América do Norte e alguns da América do Sul, como é o caso de Argentina e Salvador (Brasil). Depois de Snow, diversos cantores gravaram a música, como Willie Nelson e o grande Johnny Cash.

“I’ve Been Everywhere” também já foi utilizada em peças publicitárias. A maioria por empresas de telecomunicações, sobretudo de banda larga. Recentemente, foi criado o The Everywhere Project, onde convidaram designers e ilustradores para criar etiquetas de bagagem (foto) para cada cidade listada na versão americana.

Johnny Cash gravou a música para o álbum American II: Unchained, o segundo da série American. E, assim como Cash faria com várias outras músicas, sua versão ficou tão boa que muita gente pensa que a canção foi criada por ele.

A primeira

A música dessa semana é “Cry, cry, cry!”. Composta em 1955, ela foi lançada como lado B de “Hey Porter”, o primeiro single da carreira do Homem de Preto. O registro vendeu mais de cem mil cópias apenas nos estados sulistas dos Estados Unidos e abriu caminho para o sucesso do cantor, que passou a excursionar com o grande astro da época, Elvis Presley.

Cash tinha acabado de voltar para casa, após o serviço militar na Força Aérea Americana. Lá, ele escreveu “Hey Porter” que foi recebida com muito entusiasmo por Sam Phillips. Porém, o executivo pediu que o cantor escrevesse mais uma música para que ela entrasse como lado B. Johnny então compôs “Cry, cry, cry!” durante a noite.

Típica canção country sobre desilusões amorosas, a música se tornou um de seus mais importantes hits e figurou em seu primeiro álbum, Johnny Cash And His Hot And Blue Guitar, lançado em 1957. Sua letra ressentida e sua levada galopante sinalizavam os caminhos que o jovem músico seguiria.

Cry, cry, cry!