Cash – Uma Biografia

Se existe algo que deixa os fãs brasileiros de Johnny Cash tristes é a falta de lançamentos bibliográficos sobre o ídolo. O único em língua portuguesa é a biografia em quadrinhos Cash – Uma Biografia, do alemão Reinhard Kleist, que foi traduzida em 2009.

A obra original foi publicada na Alemanha em 2006. O livro mostra um Cash mais sombrio, enfocando bastante os efeitos das drogas na vida do cantor. Outro ponto muito interessante é que além da história central, há outra que é contada por um dos presos de Folsom Prison.

O responsável por traduzir essa grande obra e trazê-la aos brasileiros foi o gaúcho Augusto Paim. Confira a entrevista exclusiva que o Senhor Cash fez com ele:

Fazer um Johnny Cash mais sombrio era a real intenção da obra?

O Cash de Kleist é uma espécie de Cavaleiro das Trevas da música country, o que de certa forma demarca a inflluência da linguagem dos quadrinhos na obra. A versão cinematográfica Johnny & June, apesar de bastante diferente, também evidencia a influência de um gênero e de uma linguagem no resultado estético. Essas diferentes versões, no entanto, não significam de modo algum falhas de uma ou outra obra. O mesmo homem pode ser lido sob diferentes luzes. É questão de interpretação. O Johnny Cash de Kleist é um homem iluminado pela luz de uma lanterna na floresta escura.

Qual a importância das músicas de Cash nessa biografia?

É difícil fazer a biografia de um músico, tanto em quadrinhos quanto em prosa. Por quê? Porque esses são meios visuais, o que faz perder o principal elemento de um personagem como esse: a sua arte. Não que isso inviabilize um trabalho, pois há alternativas. Kleist, por exemplo, usa as músicas como interrupções para dar ritmo à leitura – como as pausas em uma música fazem também. Ele inclusive “desenha” essas músicas. Isso só é possível, claro, porque as canções de Johnny Cash são de natureza narrativa. Elas contam uma história e, quando a ouvimos, imaginamos essa história. São, portanto, músicas visuais! Por outro lado, essa estrutura utilizada por Kleist tem outra função: ela insere as obras dentro do contexto da vida do autor contada durante todo o livro. Porque os grandes artistas – os de reconhecimento duradouro – não criam apenas por objetivos comerciais. Eles “sentem” o que criam, e essa sua obra tem então origem nos acontecimentos à sua volta. Assim é a história de Johnny Cash e assim conseguiu Kleist reproduzir essa história na forma de quadrinhos.

Por quê o livro ganhou tantos prêmios pelo mundo todo?

Premiações às vezes dizem respeito mais a questões extraliterárias (extraquadrinísticas também) do que à qualidade da obra. Mas há casos raros em que mérito e reconhecimento do meio coincidem. É o caso de Cash – uma biografia. Vejo nessa obra diversos motivos para essa carreira premiada. Um dos principais são técnicos: a qualidade do desenho, as dificuldades de narrar em preto e branco, o layout das páginas… Além disso tem a natureza narrativa: o modo como Kleist compôs a obra, a escolha do narrador, a estrutura dos capítulos etc. Mas, no fundo, no fundo, o que importa mesmo é o conjunto da obra composto pelo mosaico de todas essas partes. O que importa mesmo é a interpretação que Kleist nos dá de Johnny Cash. Sem romantismo, sem iconolatria. Apenas o homem e o que ele conseguiu com sua arte, sem esquecer aí o que isso lhe custou. O ônus e o bônus. Como na vida de todos nós, pessoas reais.

Na sua opinião, o que diferencia Johnny Cash de outros ídolos da música?

Acho que a sua versatilidade é um elemento importante. Johnny Cash, que começou como um ídolo comum da música country, tornou-se no fim da vida um artista contracultural. E em todas as fases da sua carreira há músicas emblemáticas que permanecem idolatradas até hoje. Ele também é bastante admirado por sua audácia e coragem – como por ter tocado para os prisioneiros na prisão Folsom, por exemplo. E pela sua perseverança ante os obstáculos da vida – a morte do irmão, as crises com as drogas, o relacionamento com June. Em suma, Johnny Cash sintetiza a unificação entre artista e obra, e aqueles que o admiram de verdade o admiram como homem e como músico.