Enquete: American

Semana passada publiquei a nossa primeira enquete sobre os clássicos de Johnny Cash. Até o momento, “Folsom Prison Blues” lidera com 16.67%, seguido de perto por “Ring of Fire” com 14.58%.

E, como prometido, hoje é a vez de votar nas músicas da série American, que compreende os álbuns de 1994 a 2010.

Obs: As canções de autoria do Man in Black, relançadas nessa época, não entraram na enquete. 

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O Homem Solitário

A música dessa semana é “Solitary Man”. Escrita e gravada por Neil Diamond, a canção ganhou várias versões posteriormente nas vozes de Chris Isaak, Johnny Rivers e, claro, Johnny Cash. Em 2005, a revista Rolling Stone fez uma matéria afirmando que “Solitary Man” continua a ser a música mais brilhantemente eficiente da carreira de Diamond.

Todo esse sucesso só foi superado mesmo pela versão de Johnny Cash. A regravação aconteceu no American III: Solitary Man, de 2000, e rendeu a ele um Grammy de Melhor Performance Masculina. O álbum ainda trouxe as versões de “One” (U2) e “I Won´t Back Down” (Tom Petty).

Apesar da letra de “Solitary Man” refletir perfeitamente a personalidade de Neil Diamond, ela caiu como uma luva para Cash. Sua versão ainda foi usada no penúltimo episódio da série Stargate e também no filme Solitary Man, estrelado por Michael Douglas.

NEIL DIAMOND – SOLITARY MAN

 

Johnny Cash – Solitary Man

 

Johnny Cash na novela?

Recentemente, a música entrou para Amor Eterno Amor, novela da Rede Globo, como tema do personagem principal. Quando as pessoas ouviram “Solitary Man” na trama, a maioria achou que se tratava da versão do Homem Preto. Porém, quem canta é o jovem cantor Dan Torres. Para quem não está lingando nome à pessoa, ele participou do programa “Fama”, em 2003. A verdade é que Dan confundiu quase todo mundo, já que conseguiu atingir um timbre de voz muito parecido com o de Johnny Cash, além de ter usado o mesmo arranjo musical. Confira, abaixo:

INÉDITO: Com a palavra, Cash!

Hoje posto um material inédito em língua portuguesa. Trata-se de uma entrevista do Homem de Preto, realizada em 2003, que foi concedida ao ator e amigo pessoal, Tim Robbins. Na época, o áudio acabou entrando em uma edição especial do álbum American III: Solitary Man.

A conversa é bem descontraída e, em certos pontos, até bem humorada. Ela aborda assuntos como a publicidade no meio musical, os álbuns gravados nas prisões, a infância no campo e também o período em que Cash serviu na Força Aérea Americana.

Espero que gostem!

Cash: Não dou muitas entrevistas. Na verdade, não estou fazendo nada atualmente! Vou tirar dois dias de folga para ir para casa e logo depois volto ao estúdio. Hoje o artista se transformou em publicitário, em um vendedor de discos.  Por isso quero terminar tudo em quatro ou cinco dias para depois fazer duas semanas de televisão e terminar.

Robbins: Então tenho sorte de você estar aqui e sorte de querer falar comigo. Espero não te incomodar.

Cash: Estou me referindo ao artista ter que realizar o marketing do produto. Quando comecei, em 1955, tínhamos um show em Arkansas com Elvis Presley. Pediram-me que fosse à emissora de rádio para promover o concerto desta noite. Não aceitei fazer o tal programa, mas Elvis fez. Não acreditava nisso, até que me dei conta de que eu também havia me transformado em um publicitário, justo eu que sempre fui contra isso. Mas é o tipo de coisa que precisamos fazer. Nem que seja para depois poder escolher que tipo de publicidade vale a pena.

Robbins: Mas em que momento da carreira você decidiu aderir à publicidade?

Cash: Foi quando a gravadora me mandou fazer pela primeira vez uma foto promocional. Eu disse a mim mesmo: “Jamais volto a fazer uma coisa dessas!” (Risos) Isso foi em 1955 e, a partir daí, fiz fotos em todos os anos. Mas, pelo menos, aprendi a ser mais seletivo.

Robbins: Talvez por isso que a mídia acabe se equivocando, e relacionando você a coisas que na verdade não são reais. Como por exemplo, a lenda de você ser “meio índio”.

Cash: Adoraria ter uma parte índia, mas não tenho. Eu encontrei muitos amigos índios por causa da minha música. Canções como “Folsom Prison Blues”. Tinha uma família de jovens índios em Salt Lake City que batizaram um de seus filhos com meu nome. Foi aí que me dei conta que precisava tocar em prisões e em reservas indígenas para poder me aproximar mais deles. Fui a uma reserva em New York e me tornaram um deles, em uma cerimônia. O chefe da tribo e sua mulher celebraram o rito de iniciação e me deram um nome indígena. É assim que funciona essa relação. Eles escutam coisas em meus discos com as quais se identificam, acabam me agradecendo e me tratando muito bem. E eu faço o mesmo com eles.

Robbins: O mesmo acontece com os presidiários, já que você devolve a eles um pouco de dignidade e dos direitos humanos que lhes foram negados.

Cash: Acho que sim. Toquei em minha primeira prisão em Hountville, Texas, em 1956. Era uma espécie de rodeio, onde nós ficávamos parados no meio da arena. Só conseguia ouvir o meu violão. Porém, quando a música parou, a multidão delirou. Quanto mais gritavam, melhor era para nós. Depois disso fiz outros shows em prisões, como em San Quentin. Mas sempre tive a vontade de gravar um álbum em uma delas. Eu sabia que um disco ao vivo em uma penitenciária poderia ser algo espetacular. Finalmente falei com meu agente, que convenceu a gravadora. Foi aí que gravamos em fevereiro de 1968 o At Folsom Prison.

Robbins: Vamos falar um pouco da sua infância. Você nasceu em…

Cash: Em 26 de fevereiro de 1932. Em uma pequena casa rodeada de árvores e campos de algodão. Foi ali que cresci, nas terras negras do Delta, ao lado do rio Mississipi. Meu pai era um criador de mulas. A gente passava o tempo todo atrás dessas mulas. Tinha que levá-las pastar e depois ia buscá-las. Era uma tradição familiar. Todos da família faziam o mesmo, inclusive as meninas. Tenho lembranças doces, mas também lembranças amargas, mas no geral era uma boa vida. O que amenizava todos os problemas era o rádio que escutávamos todas as tardes quando voltávamos do campo. A gente ouvia o que hoje é conhecido como Hillbilly, música Folk, Jimmy Rodgers, e todos os artistas populares do Texas. Para mim havia todo um mundo musical ali. Não digo que resolvi começar a cantar por causa dessas músicas, mas com certeza me fizeram cantar melhor.

Robbins: Quando começou a fazer música?

Cash: Comecei a escrever poemas muito antes do que me lembro, mas nós não tínhamos dinheiro para comprar instrumentos musicais. Dessa forma não consegui ter meu violão antes dos 18 anos. Mas eu cantava na escola e na igreja. Minha mãe trabalhou duro para me ensinar canto e me conseguiu uma professora. Tive três aulas com ela, cantando solo e sendo acompanhado pelo piano. Só que eu me sentia tão incomodado que ela percebeu e disse: “Ok, eu desisto. Cante apenas as músicas que você gosta”. E aí cantei uma música de Hank Williams, “Lovesick Blues”. Ela fechou o piano e me disse: “Suas aulas de canto terminaram. Cante sempre da sua maneira e nunca deixe que te digam o que fazer”. Aquilo foi quando tinha 14 anos. Nunca esqueci esse conselho. Passaram-se os anos e estudei mais música, principalmente para aprender a ler e escrever. Às vezes isso é útil. Se você está no meio da noite e te vem uma ideia de melodia à cabeça, pode anotar tudo em um papel para no dia seguinte tocá-la.

Robbins: E o serviço militar, onde serviu?

Cash: O treinamento básico foi em San Antonio, em 1950. Em seguida, fui trabalhar com operação de rádio nas bases. Eu tinha talento para me comunicar por códigos. Aquilo foi durante a Guerra Fria, por isso me mandaram para uma base do Texas estudar o código russo. Aprendi a falar russo e a aplicar tudo em código morse. Depois, eu precisei escolher meu destino: Alaska ou Alemanha. E fui para a Alemanha, é claro! (Risos) Fiquei lá muito tempo, trabalhando nos serviços da segurança nacional e sendo interceptador de rádio. Cheguei a ser chefe de operações durante três anos. Quando o serviço militar acabou me ofereceram um cargo, mas eu disse: “Obrigado, mas eu quero é cantar no rádio!”.

Robbins: Nessa época você já tinha comprado o seu violão?

Cash: Sim. Já tinha conseguido o meu primeiro violão.

Robbins: E qual violão era?

Cash: Nem tinha nome, era um violão da Alemanha. Mas o som era bom e dava pra afinar um pouco.

Robbins: Nossa! Não sabia dessa história que você tinha ajudado na segurança nacional do país…

Cash: É… mas tem muitos outros segredos que não posso contar. (Risos)

Em todos os lugares

A música dessa semana é o super-country “I´ve Been Everywhere”, gravada por Johnny Cash em 1996. Ela foi escrita pelo australiano Geoff Mack, em 1959, e listava diversas cidades da Austrália.

Porém a versão que conhecemos foi adaptada por Hank Snow, em 1962, para lugares da América do Norte e alguns da América do Sul, como é o caso de Argentina e Salvador (Brasil). Depois de Snow, diversos cantores gravaram a música, como Willie Nelson e o grande Johnny Cash.

“I’ve Been Everywhere” também já foi utilizada em peças publicitárias. A maioria por empresas de telecomunicações, sobretudo de banda larga. Recentemente, foi criado o The Everywhere Project, onde convidaram designers e ilustradores para criar etiquetas de bagagem (foto) para cada cidade listada na versão americana.

Johnny Cash gravou a música para o álbum American II: Unchained, o segundo da série American. E, assim como Cash faria com várias outras músicas, sua versão ficou tão boa que muita gente pensa que a canção foi criada por ele.