Em crise

Johnny Cash estourou no final dos anos 1950, porém a primeira metade da década seguinte não foi nada agradável para o Man in Black.

Um dos acontecimentos mais “desastrosos” se deu em 1965, quando uma peça do seu caminhão esquentou demais e acabou colocando fogo em todo o veículo quando ele passava pelo Parque Nacional de Los Padres, nos Estados Unidos.

Relatos dizem que Cash abandonou o veículo em chamas para ir pescar e o mesmo acabou colocando fogo em 206 hectares de terra, o equivalente a 2.060.000 metros quadrados. Além da imensa área que atingiu, o incêndio ainda acabou matando 49 dos 53 condores que estavam lá e eram protegidos pelo Governo Federal dos Estados Unidos, pois estavam ameaçados de extinção.

Ao ser julgado pelo caso, Cash disse que não foi ele que causou aquilo: “foi meu caminhão, e ele está morto, então você [juiz] não pode perguntar pra ele.” Além disso, quando foi informado sobre a morte dos 49 pássaros, Cash disse que não se importava nem um pouco com “seus malditos pássaros amarelos.” Resultado: o governo federal processou o cantor e Cash teve que pagar uma bela multa.

Nessa época, a carreira e a popularidade de Johnny declinava consideravelmente ao mesmo tempo que seus status de rebelde ascendia. O Homem de Preto parecia estar na rota inevitável da auto-destruição. Mas, como conta a história, não foi bem isso que aconteceu.

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Xerife?

Fora da lei? Há controvérsias! Johnny Cash recebeu em 1979 esta carteirinha que o legitimava como agente da lei no condado de Davidson, Tennessee (EUA) com o posto de assistente de xerife. Esta curiosidade foi encontrada através do tumblr retrô David Cowles Studios.

O mais engraçado é que o Homem de Preto possuía uma fama bem diferente. Talvez por Cash se apresentar voluntariamente em penitenciárias desde o início de sua carreira. Além disso, músicas como “Cocain Blues”, “Folsom Prison Blues” e “San Quentin” contavam sempre histórias de presidiários e criminosos. E isso sem falar nos álbuns At Folsom Prison e At San Quentin, que foram gravados dentro das prisões.

Porém, ao contrário do que muitos fãs imaginavam, o Man in Black nunca ficou na cadeia por muito tempo. Seu maior problema com a lei foi em 1965, quando um esquadrão antinarcóticos em El Paso, Texas, o pegou em flagrante. Os oficiais pensavam que Cash trazia heroína do México, mas na verdade eram apenas anfetaminas, escondidas na caixa de seu violão. Cash também foi preso no ano seguinte em Starkville, Mississippi, ao invadir uma propriedade privada para apanhar flores.

De qualquer forma é muito irônico ver uma imagem dessas. Eu ainda prefiro essa outra foto:

Aconteceu em Folsom

Janeiro de 1968 ficou marcado pela gravação do lendário Johnny Cash At Folsom Prison, um dos melhores álbuns ao vivo da história. Falar do disco é chover no molhado. Ele é perfeito! Mas quero destacar um momento em especial. O momento em que o ídolo canta a música do fã. Algo que, certamente, marcaria a vida de qualquer um.

Preso por assalto a mão armada, Glen Sherley era detento da prisão de Folsom e ganhou um verdadeiro presente ao final do show. Ele teve sua canção, “Greystone Chapel”, sobre a capela da prisão, interpretada de surpresa por Cash. Antes de começar a cantar, Cash ainda estendeu a mão ao fã, que estava sentado na primeira fileira, e o apresentou como o autor da música.

Depois do show, Johnny Cash e June Carter se compadeceram do sonho de Sherley de tornar-se cantor. O Homem de Preto intercedeu para que o presidiário conseguisse a liberdade e depois o ajudou com sua carreira musical. Infelizmente essa história teve um final trágico. Devido aos problemas com drogas e à incapacidade de se ressocializar, o ex-detento acabou se suicidando em 1978.

De qualquer forma, Sherley viveu seu sonho. Assista, abaixo, o ex-presidiário de Folsom cantando “Greystone Chapel”:

Luther Perkins

Há 44 anos, um terrível acidente tirou a vida de Luther Monroe Perkins, guitarrista do Tennessee Three, a banda que acompanhava Johnny Cash.

Luther Perkins nasceu em Memphins em 8 de janeiro de 1928, mas cresceu em Como, Mississipi, para onde sua família se mudou quando ainda era criança. E é nessa fase de sua vida que surge uma das melhores história que já ouvi.

Sabe aquele conto do pote de ouro no fim do arco-íris? Ainda garoto, Luther sonhou com isso. O problema é que o menino levou tudo isso muito a sério e foi conferir se era verdade. Ele cavou, cavou, mas tudo o que conseguiu foram alguns tijolos velhos. Resolveu vendê-los a um companhia de construção civil da cidade e ganhou 2 centavos por cada um.

A história parece banal, mas acabou resultando em algo muito importante. Com o dinheiro que conseguiu pela venda dos tijolos, acabou comprando seu primeiro violão. Digamos que, de uma forma ou de outra, o jovem encontrou seu “pote de ouro”.

Já adulto, ele retorna a Memphins onde começa a trabalhar como mecânico. Lá conhece Marshall Grant e, posteriormente, é apresentado a um tal de Johnny Cash. Juntos, fizeram muito sucesso e gravaram discos emblemáticos, como At Flosom Prison.

Infelizmente, o guitarrista faleceu cedo. Durante a noite de 03 de agosto de 1968, um incêndio tomou conta da casa de Luther, matando o músico. O acidente foi causado por um cigarro que ficou acesso em sua mão e, quando pegou no sono, acabou caindo sobre o tapete, incendiando toda a casa.

Luther Perkins foi um dos maiores guitarristas de sua época. Fez história na música, ajudou a criar o rockabilly e possuía um estilo inconfundível. Assim como o próprio Johnny Cash, ele se destacava por sua simplicidade.

Sempre muito quieto e discreto, era comum que o Homem de Preto brincasse com o amigo: “Luther está morto há muitos anos, só que ele ainda não sabe disso”.

Confira uma pequena homenagem ao grande Luther Perkins:

Merle Haggard

Hoje vou falar sobre outro grande músico que fez parte da vida de Johnny Cash: Merle Haggard, uma das lendas da música country.

Quando jovem, Merle sempre teve problemas com a polícia. Aos 14 anos, ele acabou preso por vadiagem e furto. Mas nada se compara ao que aconteceu em 1957. Após tentar roubar um bar, o jovem foi condenado a três anos na prisão estadual de San Quentin.

Entre as diversas experiências que Merle Haggard teve nesse período, uma delas foi musical. No Ano Novo de 1958, Merle pôde assistir de perto a um dos vários shows que Johnny Cash fez na penitenciária de San Quentin.

“Eu conheci Johnny em 1963, mas eu já tinha me impressionado com ele desde que eu o vi tocar na prisão de San Quentin, onde eu estava preso. Ele tinha perdido a voz na noite anterior, mas mesmo assim conseguiu ganhar todos os presos. Quando ele foi embora, todos nós nos tornamos fãs de Johnny Cash. Havia cinco mil detentos em San Quentin e cerca de 30 guitarristas, assim como eu”, disse Merle em entrevista à revista Rolling Stone.

Alguns anos depois, já livre, a carreira musical de Merle começou a decolar. Um certo dia, Johnny convidou o amigo para participar de um show que ele faria para a televisão. Enquanto discutiam sobre as músicas que iriam tocar juntos, o Homem de Preto disse: “Haggard, deixe-me dizer às pessoas que você já esteve na prisão. Vai ser a melhor coisa que vai acontecer na sua vida! Se você começar a dizer a verdade, os seus fãs nunca vão te esquecer”.

Merle, a princípio, foi contra. Ele tinha pavor de revelar seu passado. Para ele, ter sido um presidiário era algo muito vergonhoso. Porém, o cantor acabou seguindo o conselho de Cash  E, no fim das contas, Johnny estava realmente certo. Depois que o mundo soube sobre o passado de Merle Haggard, sua carreira “bombou”. Ele mesmo diz que esse episódio foi um divisor de águas para ele.

Confira, abaixo, um pouco da música de Merle Haggard:

 

 

Prêmios e mais prêmios

Johnny Cash ganhou uma infinidade de prêmios e honrarias durante sua vida e, mesmo após sua morte, continuou ganhando vários elogios, prêmios e homenagens. Para começar, é importante ressaltar que Cash é o único artista, vivo ou morto, incluído em todos os Halls of Fame – listados abaixo.

  • Nashville Songwriters Hall of Fame
  • Songwriters Hall of Fame
  • Country Music Hall of Fame and Museum
  • Rock n’ Roll Hall of Fame
  • Rockabilly Hall of Fame
  • Hit Parade Hall of Fame
  • Gospel Music Hall of Fame

Além disso, o Homem de Preto ganhou vários prêmios importantes como o Academy of Country Music, American Music Awards, Country Music Association e MTV Video Music Awards.

E o que dizer do Grammy Awards, conhecido como o “Oscar” da música? Johnny recebeu quase 20 estatuetas até hoje! A última delas foi conquistada em 2008, com o clipe de “God’s Gonna Cut You Down”.

Quando o assunto são listas, destaco a revista britânica NME que, em 2011, elegeu “Hurt” como o melhor clipe de todos os tempos.

Para conferir a relação completa de todos os prêmios que o Man in Black já recebeu, clique aqui.

Country ou Rock?

Ao longo dos anos, jornalistas, críticos e fãs sempre se dividiram na hora de classificar o som do Homem de Preto. Country ou Rock? Afinal, mesmo sendo uma lenda da música country, Cash faz parte da história do rock´n´roll.

Juntamente com Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, entre outros, Johnny Cash ajudou a criar o estilo. Além disso, ele foi um dos pioneiros do rockabilly. Basta ouvir músicas como “Get Rhythm”, por exemplo.

E o que dizer de suas roupas? Muito antes de qualquer metaleiro se vestir de preto, lá estava Johnny Cash. Isso sem falar de suas letras, suas atitudes e sua vida conturbada. Nada mais rock´n´roll!

Mas essa “briga” entre country e rock ficou ainda mais evidente nos anos 90. Nessa época, as rádios country ignoravam os álbuns de Johnny. A relação com as gravadoras também não era das melhores.

Tudo piorou quando Cash se juntou ao produtor Rick Rubin e inciou a série American. Todos os críticos ligados ao estilo condenaram o cantor. Diziam que aquilo não era country. Foi nessa fase que Cash fez versões para bandas de rock contemporâneo, como Nine Inch Nails, Soundgarden, U2, Depeche Mode, entre outros.

Para “celebrar” o momento, Cash e Rubin compraram um anúncio de página inteira na revista Billboard, onde sarcasticamente agradeciam à indústria da música country por seu apoio irrestrito, acompanhado de uma fotografia de Cash mostrando seu dedo médio (em breve farei um post especial sobre isso).

De qualquer forma, Johnny Cash sabia como ninguém transitar tanto pelo country, como pelo rock. E, mesmo em seus últimos discos, o Man in Black nunca esqueceu dos artistas country. Tanto que a série American tem homenagens a grandes nomes desse estilo, como Hank Williams e Kris Kristofferson.

Por isso, vamos esquecer esses rótulos. Afinal, o som de Johnny Cash é impossível de se classificar. O próprio Cash era contra separar as duas coisas. Ele detestava esse tipo de rótulo. A verdade é que graças a essa mistura de estilos (sem esquecer do gospel também) é que o ídolo conseguiu chegar a um som inigualável.

A maior prova disso é que ele faz parte do Rock and Roll Hall of FameCountry Music Hall of Fame, Gospel Music Hall of Fame e Rockabilly Hall of Fame. Pouca coisa, não?!